Sobre Relacionamentos Virtuais

Não há como negar as vantagens da internet e redes sociais na nossa vida. A informação a qualquer hora, estar atualizado aos acontecimentos do mundo em tempo real, adquirir novos conhecimentos. Assim acontece também com as redes sociais, a facilidade de se aproximar das pessoas, conhecer gente do mundo todo sem sair de casa, reencontrar amigos que ficaram perdidos no tempo e expandir contatos profissionais.

E há também o outro lado das redes sociais e dos atuais aplicativos: a paquera e os relacionamentos virtuais.

Muitas pessoas são muito tímidas, ou tem dificuldade em se comunicar, paquerar e iniciar relações pessoalmente e se beneficiam de verdade da tecnologia, mas deixo este tema para um próximo artigo, pois aqui gostaria de falar de algumas preocupações com esse novo fenômeno: a super-exposição da rotina, a criação de um perfil “fake” onde se vende uma vida extraordinária 24 horas por dia, a “troca” das relações reais pelas virtuais, o desapontamento com a falta de atenção virtual…  Ou seja, quase uma brincadeira de ser quem não é, e que muitas vezes acaba sendo a principal fonte de relacionamentos da pessoa.

Naturalmente quando conhecemos alguém, na fase inicial de conquista e paixão, passamos também pela fase da idealização, onde vimos no parceiro “tudo aquilo que queremos ver” e que confirma ser ele, o parceiro, a pessoa certa e definitiva na nossa vida. É possível que no mundo virtual esse componente acaba sendo intensificado, as fantasias podem nascer em terreno mais fértil quando os envolvidos estão em desvantagem por não “ver” o outro. A tal brincadeira de ser quem não é. O Dr. Cristiano Nabuco, do Programa da Dependência da Internet do Instituto de Psiquiatria da USP, fala de uma espécie de palco onde se pode manipular a realidade.

As palavras escritas no computador ou nos smartphones nem sempre expressam a verdade. A jornalista Martha Medeiros expõe a situação de um modo interessante: a pessoa pode escrever com raiva, radiante de felicidade, com ironia, com segundas intensões, sem pretensão alguma, por obrigação ou com hesitação. Mas nada disso pode chegar do outro lado da tela – as palavras chegarão desacompanhadas, há de se contar com a capacidade do leitor de colocar emoção em cada frase, cada palavra escrita. Uma mensagem sensível  pode ser interpretada como seca, desinteressado porque faltou a entonação da voz, o olhar terno e o toque das mãos.

As vezes com raiva você pode escrever: não quero mais te ver. As vezes apaixonado, mas sofrendo por não ser correspondido, você também pode escrever: não quero mais te ver. A mesma expressão, com mensagens muito diferentes.

As palavras são resumos dos nossos sentimentos. Mas para serem compreendidos ainda se faz necessário o toque, o olhar, a voz, a audição. Sutilezas que o mundo virtual ainda não é capaz de decifrar.

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