O ato de se relacionar por si só já implica em vários desafios. Nos arriscamos o tempo todo nos nossos relacionamentos afetivos, familiares, sociais e, arriscar-se, é uma qualidade que geralmente as pessoas apresentam algum nível de dificuldade.

O relacionamento entre pais e filhos via de regra é carregado de uma série de crenças que são decisivas na construção de uma relação saudável ou desastrosa.

Essas crenças são herança da relação que nossos pais estabeleceram conosco desde o nosso nascimento. Chamamos isso de padrões relacionais de interação familiar e é a partir desses padrões que vamos reproduzir o modelo que nos foi apresentado – caso internamente acreditemos que foi uma forma correta de ser educado – ou procurar fazer o modelo inverso – caso a educação que recebemos nos gerou alguns “traumas” e não a consideramos a melhor maneira de ser educado. De qualquer forma, o que será reproduzido ou evitado vem sempre desse modelo que nos foi passado.Temos então a exata noção da responsabilidade dos pais na forma como educam e se relacionam com seus filhos, o que nos leva a pensar em alguns aspectos que os pais devem estar atentos neste papel de formador.

Proteção pede equilíbrio

Os tempos mudaram e hoje não temos mais como modelo padrão aquela educação austera e rígida, além de quase que exclusiva delegada a mãe. Com uma educação mais liberal os pais passaram a participar mais da vida do filho, de modo mais amigável. Esse participar mais as vezes se transforma numa super-proteção nada saudável para o desenvolvimento do filho.

Certa vez uma mãe procurou atendimento para sua filha, uma adolescente de 17 anos. No primeiro atendimento ela descreveu uma filha muito insegura, que se sentia o “patinho feio” entre as amigas e estava indo muito mal no colégio, apesar de se cobrar muito e dedicar algumas horas extras todos os dias aos estudos. A mãe disse: “ela não sabe fazer nada sozinha, não sabe nem atravessar uma rua”. Nas consultas com a filha foi aparecendo uma mãe que não era só presente, mas também invasiva e insegura quanto a educação que dava a filha: se ela permitisse que a filha viajasse com a família de alguma amiga, a mãe viajava também e se hospedava no mesmo hotel ou num próximo (as vezes sem nem mesmo a filha saber); nunca permitiu que a filha andasse de táxi ou ônibus sozinha, apenas com um taxista já conhecido da família; nunca deixou a filha ir sozinha nem mesmo ao salão de cabeleireiro que era há 2 quadras da casa onde moravam e que já frequentavam há anos.

Enfim, a necessidade exacerbada de participar da vida do filho acarreta numa relação nada saudável de desconfiança, transferindo para a criança-adolescente crenças de desvalia, desmerecimento e muita insegurança.

O novo Pai

Antes, quase que unicamente o provedor, hoje um pai mais presente e com maior participação na criação do filho. Com a mulher mais ativa no mercado de trabalho há alguns anos os homens começaram a ser mais colaboradores nas tarefas domésticas, o que aos poucos vem se estendendo aos cuidados e educação dos filhos. Já é uma realidade – ao menos nas sessões de terapia – o pai que se divide com a mãe na agenda do filho, desde quem leva e busca da escola, às reuniões de pais e consultas médicas. E fazem isso com prazer. Ao passo que um pai (e mãe também) ausente pode causar grande vazio emocional, a medida que geralmente as crianças e adolescentes tendem a acreditar que são responsáveis pelo afastamento do genitor, carregando muita culpa e sentimentos de fracasso e inadequação.

Ser amigo e dar limites

Ser amigo dos filhos pode ser muito bom para a relação desde que, ainda assim, haja claramente a diferenciação de papéis. Aceleramos de 0 a 100 em muito pouco tempo. Antes o filho deveria ser um “ser submisso”  às regras dos pais, sem direitos e vontades, hoje muitos filhos são colocados num “trono” e todos só fazem a sua vontade. Ser amigo do filho é colocar-se a disposição para ouvi-lo, acolher suas dúvidas e dores, participar de eventos importantes para ele, aconselhar, em suma estar disponível emocionalmente para ele. O que não exclui a necessidade de dar limites, o filho precisa de amor, amizade, respeito e consideração, mas também precisa conhecer os limites que deve respeitar, entre o mundo dele e o do outro para assim se transformar num adulto apto a viver em sociedade e respeitar as diferenças.

Usar o tempo com os filhos com sabedoria

Encontrar tempo hoje para se passar com os filhos é um dos principais desafios no relacionamento entre pais e filhos. Na verdade o problema não é tempo que se passa fora de casa, esse é necessário para o sustento da família, o problema é quando os pais chegam em casa e ficam no celular enquanto os filhos estão ou na TV, ou no videogame ou no celular também. Meu cunhado não participa de nenhuma rede social, e sempre que estamos em família e alguém começa a mexer no celular ele fala: “a rede social aproxima os que estão longe e afasta os que estão perto” e todos caem na gargalhada. Ele deve ter lido isso em algum lugar, e apesar da piada ser engraçada é a mais pura verdade, principalmente dentro de casa. Ou se não for o celular, é o trabalho que se leva pra casa, ou a falta de paciência e ânimo para passar um tempo com os filhos. Esses comportamentos afastam os filhos da preciosa relação afetiva que mais tarde poderá será sentida pela família de forma dolorosa.

Compartilhar interesses em comum

Se você gosta de jogar tênis, futebol, vôlei, nadar, correr, pedalar, pescar, enfim, qualquer paixão que tenha, tente praticar com seus filhos. São momentos únicos que estreitam muito a relação, criam memórias positivas e duradouras e reforçam e muito o afeto entre pais e filhos.

Para muitas coisas na vida não existem regras a serem seguidas e isso se aplica a questão relacionamentos. Nada pode ser padronizado quando falamos de seres humanos, com características tão próprias e únicas. Porém, estarmos atentos a essas diferenças (entre nossos próprios filhos mesmo) e aos nossos comportamentos como pais e educadores com certeza ajudará muito a deixarmos uma herança emocional mais bonita e feliz para nossos filhos.

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