Um pouco de raiva pode ser o combustível para uma algum tipo de mudança positiva, por exemplo: se no trabalho você percebe que outras pessoas estão recebendo promoções e você não, pode sentir raiva mas decidir se esforçar mais. O problema é que combustível é inflamável e neste caso, na grande maioria das vezes leva a uma explosão.

A raiva é o sentimento/emoção mais difícil de ser controlada. Após algum evento ou pensamento acioná-la você não conseguirá abandoná-la tão facilmente. Um dos fatores que contribui para isso é que ela é também uma emoção bastante sedutora: no seu diálogo interno e solitário vão se criando cada vez mais argumentos que a alimentam e a tornam cada vez mais inflamada.

Tomamos por exemplo a seguinte situação: você já está se preparando para dormir quando seu filho que está com dor de cabeça diz que gostaria de tomar um remédio para se deitar, mas não há remédio em casa e você que já estava de pijama, se troca e sai até a farmácia mais próxima. Está chovendo muito e ao se aproximar da farmácia você vê que há duas vagas disponíveis no estacionamento. Mas ao se aproximar mais recebe uma “fechada” e como um raio outro carro passa a sua frente, entra no estacionamento e estaciona de forma a ocupar as duas vagas. Nesse momento você fica furioso, com muita raiva pela atitude do motorista, fica lembrando do seu filho em casa esperando o remédio e que você só quer voltar logo pra casa e recolocar seu pijama. A ira é crescente e você começa a ter pensamentos do tipo: “Que folgado”, “Pensa que é o dono da rua”, “Que falta de respeito”. Esses pensamentos se tornam argumentos que só vão se fortalecendo e aumentando a raiva enquanto você dá duas voltas no quarteirão procurando uma vaga. Na segunda vez que passa na frente da farmácia o mesmo motorista está saindo, tão rápido que nem te vê e quase causa um acidente. Isso inflama ainda mais a sua ira a ponto de pensar em disparar com seu carro atrás dele, esquecendo completamente do seu filho ou do seu desejo de retornar para casa e ter uma noite de sono tranquila.

Há uma cadeia de pensamentos furiosos que alimentam a raiva e quando ruminamos o que nos deixou com raiva, mais bons motivos e justificativas encontramos para mantê-la. O gatilho universal para a raiva é a sensação de estar em perigo. Isso pode ser sinalizado não apenas por uma ameaça física direta, mas também, como é mais frequente, por uma ameaça simbólica a auto-estima ou a dignidade: tratamento injusto ou grosseiro, insulto, humilhação, traição e outras situações onde possa sentir-se denegrido. Quando o corpo se fecha num estado de irritabilidade, a emoção posterior – geralmente de ira ou ansiedade – é exageradamente e desproporcionalmente intensa. Isso rapidamente te leva a um processo que se retroalimenta: o gatilho inicial que gerou a emoção (raiva) sequestra a razão e se alimenta de pensamentos (mini gatilhos) que confirmem que você tem motivos para estar com raiva, isso acontece suscetivamente. Ao final de alguns minutos ou até mesmo segundos experimentando esse processo, a emoção raiva facilmente pode te levar a reação mais primitiva, o pior comportamento que você pode ter: a violência.

Formas de controlar a raiva

Mesmo que a raiva não te “cegue” a ponto de levá-lo a uma reação de agressão, ela no mínimo traz muitos outros prejuízos a sua vida. Já foi comprovado que emoções negativas quando vivenciadas por longos períodos podem levar a doenças graves como o câncer e doenças cardíacas. Fora o prejuízo na vida familiar, social e profissional.

Existem duas formas consideradas eficazes no combate a raiva, uma delas é reavaliar a situação, tentar ampliar o olhar para enxergar outras possibilidades. Isso pode temperar a raiva com pensamentos menos devastadores e emoções mais caridosas.

Retomemos o nosso exemplo acima, digamos que ao entrar na farmácia com toda a sua ira, resmungando alto e quase cego de raiva do motorista que se acha o dono do mundo, você ouve ao se aproximar do balcão: “chega a dar pena dele, o filho de 2 anos em estágio terminal de câncer e ele desesperado tentando encontrar esse remédio para dor”. Quase que instantaneamente sua emoção se transforma para algo mais generoso, uma compaixão e até mesmo um arrependimento e culpa por estar praguejando o pobre pai. Pensa no filho, agradece pela saúde dele.

Aqui uma nova informação precisou ser apresentada para que a emoção raiva se dissipasse ou diminuísse. No entanto podemos fazer esse exercício antes que a raiva inicial desencadeie todo o processo de retroalimentação. Ao recebermos uma fechada no trânsito podemos considerar que a pessoa pode estar correndo por algum motivo relacionado a saúde, desatento porque teve um dia difícil ou que simplesmente não fez de propósito ao invés de tomar isso como uma agressão pessoal.

No entanto isso só funcionará se essa reorganização cognitiva for feita no início do estágio de raiva, se esta for moderada, caso contrário não fará diferença alguma. Nos outros estágios a cegueira cognitiva, a capacidade de “pensar” já está muito prejudicada.

Outra forma de barrar a raiva é através do “esfriamento psicológico”. Se você acha que não conseguirá “parar” para pensar na próxima vez que for tomado pela ira, considere então dar “um tempo” da situação, se deslocar para um ambiente neutro e não propício a alimentação da raiva. Numa discussão por exemplo, significa afastar-se naquele exato momento, melhor ainda se colocar uma noite de sono no meio.

Dar uma volta para ficar só num lugar relaxante, como um parque, um lugar onde se sinta em paz; ir a algum lugar onde possa ouvir músicas que você gosta; fazer exercícios (corridas e caminhadas são muito bem vindas) também ajuda bastante nesse processo de esfriamento psicológico, pois ao final te leva a um estado de relaxamento e bem estar.

Como discutimos acima, raiva não é a melhor emoção para se alimentar. Ao invés de uma catarse, uma explosão, mais efetivo é se acalmar e enfrentar a situação/pessoa que gerou a raiva de modo mais assertivo e com maior chance de resolver a desavença.

Referência: Inteligência Emocional – Daniel Goleman – Ed. Objetiva

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *