Recentemente foi publicado um artigo no The Journal of the American Medical Association (JAMA), uma das principais revistas científicas de medicina do mundo, que aborda a relação de hormônios utilizados para contracepção e depressão.

Depressão é uma doença que está diretamente associada a inúmeros prejuízos tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento. Não tem uma predileção para classes socais, mas se apresenta mais no sexo feminino (prevalência chega a ser duas vezes maior do que nos homens). Entretanto, antes da puberdade a prevalência entre sexos tende a ser similar ou até mesmo inferior nas mulheres.

A partir dessa constatação criou-se a hipótese de que os principais hormônios femininos (estrogênio e progesterona) podem atuar como peças importantes no desenvolvimento dessa doença. Sabemos que hormônios sexuais influenciam regiões cerebrais relacionadas com a emoção e processos cognitivos, mas nunca foi realizado um estudo como esse para analisar de forma mais robusta a correlação.

A contracepção com pílulas hormonais introduz hormônios sintéticos que modulam a produção de hormônios do corpo. A adição de progesterona induziu alterações de humor nas mulheres, isso fica ainda mais evidentes com progesteronas sintéticas, que aumentam os níveis da enzima monoamina oxidase (MAO), responsável pela degradação de serotonina, que por sua vez regula o humor e irritabilidade.

Em estudos anteriores, o uso de contraceptivos orais combinados em mulheres que já apresentaram alguma alteração mais importante de humor, resultou em deterioração do humor e mudanças na reatividade cerebral relacionada as emoções.

O impacto desses hormônios é tão importante que as mudanças nos níveis de estrogênio podem ser um gatilho para o desenvolvimento de episódios depressivos em mulheres. Outras pesquisas comprovam que mulheres com depressão apresentam níveis de estrogênio menores que o de outras mulheres sem essa doença.

O uso de anticoncepcionais é uma prática disseminada e bem tolerada ao redor do mundo, mas alterações de humor são uma causa frequente para descontinuação.

O estudo

The Danish Sex Hormone Register Study é um estudo de seguimento nacional que inclui todas as mulheres vivas da Dinamarca. Neste artigo em questão, agruparam mulheres entre 15-34 anos no ano de 2000 e as acompanharam até 2013.

Todas as mulheres com diagnóstico de depressão ou uso de antidepressivos prévio foram excluídas, assim como mulheres com outros diagnósticos de transtorno mental. O estudo incluiu mais de 1 milhão de mulheres.

Resultados

Os resultados foram os seguintes: o uso de todos os tipos de contraceptivos hormonais foi associado de forma positiva com uso de antidepressivos e diagnóstico de depressão, isso quer dizer, existe uma correlação clara de desenvolvimento da doença com o uso desses métodos. O risco para desenvolvimento da doença e/ ou uso de antidepressivo pode ser até 3x maior em quem faz uso de anticoncepcionais. Esse resultado vai de encontro com a teoria de que a progesterona (hormônio mais utilizado nos contraceptivos) está envolvida na etiologia da depressão.

Mesmo dispositivos de ação local, como o DIU de progesterona, também possuem ação de progesterona sistêmica, o que resulta em aumento de risco para desenvolvimento de depressão.

Discussão

Como pontos fortes, esse artigo selecionou todas as adolescente e mulheres de 15-34 anos vivas da Dinamarca, e fez o seguimento por 14 anos em pouco mais de 1 milhão de pessoas.

O tempo de duração do uso de anticoncepcionais não mostrou aumento de risco para desenvolvimento de depressão após 2 meses do início.

Adolescentes são mais sensíveis as influencias hormonais dos contraceptivos e, portanto, sofrem com risco maior para desenvolvimento de depressão e uso de antidepressivos (lembrando que uso dessas medicações não é exclusivo para depressão). Esse achado pode estar relacionado com a suscetibilidade individual e vulnerabilidade que essa faixa etária sofre com fatores de risco para depressão.

Métodos não avaliados

Medicações de depósito ou implantes foram excluídos do trabalho, pois poderiam causar alguma confusão nos resultados. Além de responderem por uma pequena parcela do total de uso.

Conclusão

Em conclusão, o uso de contraceptivos está diretamente associado com uso subsequente de antidepressivos e diagnóstico de depressão em mulheres da Dinamarca. Adolescentes apresentaram maior vulnerabilidade do que mulheres de 20-34 anos.

Association of Hormonal Contraception With Depression
JAMA Psychiatry. 2016;73(11):1154-1162. doi:10.1001/jamapsychiatry.2016.2387
Published online September 28, 2016. Corrected on June 7, 2017.

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